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Sexta-feira, 17 de Julho de 2026

Economia

O tarifaço que ninguém fala: China impôs 55% sobre carne brasileira e Brasil pode perder até R$ 16,5 bilhões em exportações

A medida foi anunciada em dezembro de 2025 pelo Ministério do Comércio da China, após pedido formal da Associação Chinesa de Agricultura Animal

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Enquanto o mundo debate as tarifas de Donald Trump, a China aplicou silenciosamente uma medida protecionista que está causando impacto real no agronegócio brasileiro e nos empregos de trabalhadores de frigoríficos em todo o país. Sem anúncios bombásticos e sem escândalo político, Pequim implantou em 1º de janeiro de 2026 uma sobretaxa de 55% sobre as importações de carne bovina que ultrapassarem as cotas anuais estabelecidas para cada país fornecedor. A lógica é a mesma do protecionismo americano: defender produtores domésticos da concorrência estrangeira. A diferença é que a China preferiu o pragmatismo discreto ao espetáculo.

COMO FUNCIONA O MECANISMO

A medida foi anunciada em dezembro de 2025 pelo Ministério do Comércio da China, após pedido formal da Associação Chinesa de Agricultura Animal, que argumentou que o crescimento das importações prejudicava os pecuaristas locais. Para o Brasil, a cota isenta de sobretaxa foi fixada em 1,106 milhão de toneladas anuais, volume bem abaixo da realidade comercial consolidada. Em 2025, o Brasil exportou 1,68 milhão de toneladas ao mercado chinês, ou seja, 35% a mais do que o teto estipulado para 2026.

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Dentro da cota, incide apenas a tarifa regular de 12%. Acima do limite, os 55% adicionais são cobrados sobre o excedente, elevando a alíquota total a 67%, patamar que o setor classifica como impraticável para a maioria dos cortes exportados. O sistema valerá até 2028, com ajustes anuais nas cotas.

O LIMITE CHEGOU, E MAIS RÁPIDO DO QUE O ESPERADO

O problema é que a cota está prestes a acabar. Segundo análise da consultoria StoneX, o Brasil já havia utilizado 98,5% do limite anual até o fim de junho, considerando os embarques realizados e a carga ainda em trânsito. Como a viagem entre os portos brasileiros e os chineses leva em média 45 dias, a cota deve ser completamente esgotada em agosto. A partir daí, o país ficará sem acesso competitivo ao maior comprador de carne bovina do mundo por alguns meses, até o início do ciclo de 2027.

FRIGORÍFICOS PARALISAM E TRABALHADORES ENTRAM EM FÉRIAS

Os efeitos já chegaram às linhas de produção. A JBS concedeu 20 dias de férias coletivas em duas unidades no Mato Grosso a partir de 1º de julho. A Frigol adotou medida semelhante em uma unidade no Pará, onde cerca de 70% da produção era destinada ao mercado chinês. Outros frigoríficos reduziram turnos de abate e seguraram novos embarques. A China responde por cerca de 52% das exportações brasileiras de carne bovina e absorve entre 15% e 20% de toda a produção nacional do setor.

IMPACTO PARA PECUARISTAS E CONSUMIDORES

O excedente de produção que deixa de ser exportado precisará de destino e o mercado interno é o candidato mais óbvio. Isso tende a aumentar a oferta doméstica no atacado e a pressionar para baixo o preço da arroba do boi gordo, penalizando pecuaristas que já operam com margens apertadas. Para o consumidor final, especialistas avaliam que a queda deve chegar de forma limitada. A Abiec estima que as exportações totais de carne bovina em 2026 possam cair até 10%, com prejuízo potencial de US$ 3 bilhões, o equivalente a cerca de R$ 16,5 bilhões.

O QUE O GOVERNO BRASILEIRO ESTÁ FAZENDO

Diante da gravidade do quadro, o governo brasileiro iniciou negociações em maio com Pequim para ampliar a cota a partir de 2027. Como sinal de distensão, a China suspendeu recentemente a restrição que impedia três frigoríficos brasileiros de exportar desde março de 2025. O governo aguarda ainda a aprovação de novas plantas para ampliar o acesso ao mercado. Mas, até que as negociações avancem, o setor continuará refém de um teto desenhado para ser menor do que a realidade comercial consolidada, uma estratégia protecionista eficaz justamente por ser calibrada, silenciosa e de longo prazo.

FONTE/CRÉDITOS: JARUONLINE - Com informações do Veja Negócios.
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HENRIQUE FERRAZ

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