Pagamentos feitos pela lobista e empresária Roberta Luchsinger ao ex-chefe de Gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, expõem novas ramificações do escândalo das fraudes no INSS e elevam a tensão no entorno do Planalto. As transferências chegam a cerca de R$ 80 mil e ocorrem enquanto ambos são citados em inquéritos da Polícia Federal sobre o esquema.
Os repasses financeiros, somados à relação próxima de Roberta com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, hoje alvo de 3 inquéritos, colocam sob suspeita parte do círculo político e pessoal mais próximo do presidente, em um momento em que o PT tenta consolidar a candidatura à reeleição.
Pagamentos sob investigação e versões em disputa
A Polícia Federal rastreia transferências de Roberta para Marcola, que chefiou o gabinete presidencial até ser dispensado em 21 de julho. Pessoas com acesso às apurações falam em valores na casa dos R$ 80.000, embora os extratos completos sigam sob sigilo.
Depois que o assunto circula nos bastidores de Brasília, Marcola confirma ter recebido dinheiro da lobista. Ele insiste que se trata de uma operação privada, sem relação com sua atuação no Palácio do Planalto. “As transferências foram empréstimos pessoais”, afirma. Diz ainda que a dívida já foi quitada e reclama de tratamento “como algo ilegal”.
Roberta, por meio do advogado Roberto Podval, evita entrar em detalhes. “Minha cliente desconhece o assunto e responderá nos autos do processo”, declara o defensor, que diz não ter tido acesso integral ao inquérito. O silêncio público da lobista contrasta com a preocupação crescente na cúpula petista, que vê o caso como combustível para o discurso anticorrupção da oposição.

Careca do INSS no centro da trama
As transferências se cruzam com outra ponta sensível da crise: a investigação sobre o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, preso desde 12 de setembro de 2025. Roberta é citada como prestadora de serviços dele na chamada operação Sem Desconto, que apura fraudes bilionárias na Previdência Social.
O esquema sob análise da Polícia Federal envolve a concessão irregular de benefícios, manipulação de sistemas do INSS e uso de intermediários com trânsito em Brasília. A atuação de Careca, hoje preso na Papuda, empurra o caso para dentro da arena política, por tocar diretamente a gestão de um dos pilares da seguridade social brasileira.
A proximidade de Roberta com o principal investigado levanta dúvidas sobre a real natureza de suas movimentações financeiras e de sua agenda em Brasília. Investigadores tentam mapear se parte dos recursos vinculados ao esquema passou por contas de pessoas próximas a autoridades, inclusive por meio de supostos “empréstimos” e consultorias.

Amizade com Lulinha e negócios em mensagens
O elo mais delicado, do ponto de vista político, passa pela relação entre Roberta e Lulinha. Documentos da investigação revelam ao menos 6 viagens conjuntas, com reservas registradas sob o mesmo código localizador. Em junho de 2024, os dois viajam para Portugal. Entre abril e junho de 2025, percorrem outros 5 trechos nacionais.
Os diálogos também abordam estratégias para guardar dinheiro longe do radar da Receita Federal. Luxemburgo, paraíso fiscal europeu, aparece como destino preferencial. Roberta diz a Lulinha que o local é seguro. O conteúdo reforça a suspeita de que parte das vantagens obtidas com o esquema teria sido projetada para sair do país.
Em entrevista anterior, Roberta admite ter apresentado Lulinha ao Careca do INSS, mas nega papel de intermediária. “Jamais apresentei os 2 com intuito de negócio. Tanto que eles nunca tiveram transações comerciais”, afirma. A versão será confrontada com as mensagens e com o fluxo de recursos mapeado pela investigação.
Pressão eleitoral e desgaste institucional
As revelações chegam num momento sensível para o PT. Durante a convenção que oficializa a candidatura de Lula, lideranças do partido comentam em reservado o risco de que o caso contamine a campanha. O tema corrupção, que volta a rondar o Palácio do Planalto, alimenta comparações com crises anteriores e fragiliza o discurso oficial de controle e transparência.
No governo, o afastamento de Marcola é interpretado como tentativa de contenção de danos. O ex-chefe de gabinete era um dos auxiliares mais próximos de Lula, responsável por organizar a agenda presidencial e filtrar interlocutores. Sua saída abre espaço para questionamentos sobre critérios de escolha de assessores que transitam entre o poder público e o lobby privado.
O impacto se estende à imagem do INSS, peça central na rede de proteção social. A ideia de que fraudadores usaram conexões políticas para avançar sobre benefícios previdenciários mina a confiança no órgão e pressiona por reformas no controle interno, na tecnologia de dados e na blindagem contra interferências externas.
PF em evidência e cenário em aberto
A Polícia Federal e o Ministério Público tentam equilibrar a necessidade de dar respostas rápidas com a complexidade de rastrear fluxos financeiros que passam por empresas de fachada, contas no exterior e operações disfarçadas de empréstimos ou consultorias. O sigilo sobre parte dos dados alimenta especulações, mas também protege diligências em curso.
No Congresso, oposicionistas falam em convocar envolvidos para explicar o caso, inclusive em eventual CPI ou CPMI focada nas fraudes na Previdência. Governistas tentam reduzir o desgaste classificando o episódio como um conjunto de relações privadas, sem prova de benefício indevido ao presidente.
O desenlace depende dos próximos passos da investigação. Se a PF comprovar que o dinheiro circulou em troca de vantagens junto ao INSS ou a estatais, o caso tende a migrar de uma crise de imagem para uma crise penal, com denúncias formais e possível abertura de ações de improbidade e corrupção. Até lá, cada nova mensagem periciada e cada transação rastreada mantém o Planalto sob escrutínio.

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