Não é segredo para ninguém: na tentativa de estancar a perda de popularidade, o governo Lula (ao centro na foto) contratou o marqueteiro Sidônio Palmeira, que trabalhou em sua campanha em 2022. Os dois assuntos que mais preocupavam o governo, como registrou O Antagonista à época, eram o preço dos alimentos — que tal um leilão de arroz estatal para baixar os preços artificialmente? — e a relação do petista com o eleitorado evangélico.
Lula passou semanas encaixando as palavras “Deus” e “milagre” em todos os discursos. Na última semana, o Evangelho se manifestou de outra forma no discurso do petista. Sem ser questionado, o presidente resolveu dizer, durante discurso no ato em homenagem ao Dia do Cinema Brasileiro, que não é da turma da “putaria”.
“Eu sou da turma em que artista, cinema e novela não é para ensinar putaria. É para ensinar cultura, é para contar história, é para contar narrativas, e não para dizer que nós queremos ensinar às crianças coisas erradas. Nós só queremos fazer aquilo que se chama arte. Arte. Quem não quiser entender o que é arte, dane-se. Porque nós queremos muita arte, muita cultura e muita disposição de as pessoas participarem”, discursou o petista, para os aplausos de uma plateia que vaiaria as mesmas palavras caso tivessem saído da boca de qualquer outra pessoa.
Performance
Esse é o mesmo Lula que, em janeiro de 2018, quando tentava emplacar sua candidatura presidencial na esperança de escapar da cadeia, disse o seguinte após presenciar uma performance em que dois homens se beijavam:
“Vocês viram a performance do beijo aqui, né? Vocês viram. Tem gente que pode ter ficado horrorizada com aquela performance do beijo. Eu achei inusitado. E se preparem, que eu estou com 72 [anos], energia de 30 e tesão de 20. Não se descuidem.”
Em outro discurso na semana que passou, Lula deu outra moralizada, ao sugerir que uma moça pare de ter filhos e comece a estudar: “Aquela moça tem 25 anos de idade, ela tem três filhos. Eu falei para ela: ‘Minha filha, a primeira coisa que você tem que fazer é parar de ter filho”.
“Putaria”
Esse é um conselho que Lula tem repetido para mães há mais tempo, já o fez em outros discursos públicos. E, do ponto de vista de estratégia política, falar indiretamente de questões morais, sem jogar o nome de Deus em vão na cara da audiência, é muito mais eficiente.
É possível que o trecho sobre a “putaria” no cinema alcance grupos de religiosos desavisados que se contentarão ao ouvir o presidente reclamar diretamente daquilo que eles próprios não gostam. E talvez essa forma de enxergar a arte esteja mais próxima do que Lula pensa (ou não pensa) de fato. Mas, nesse caso, ele teria mentido ao longo de toda a carreira política para contentar outros grupos.
O Lula “evangélico” se diz pessoalmente “contra o aborto”, mas pondera: “Como o aborto é uma realidade, precisamos tratar como uma questão de saúde pública”.
“Eu acho uma insanidade querer punir uma mulher vítima de estupro com uma pena maior que um criminoso que comete o estupro. Tenho certeza que o que já existe na lei garante que a gente aja de forma civilizada nesses casos, tratando com rigor o estuprador e com respeito às vítimas”, completou. Mas, dias antes, seu governo não se opôs a impôr urgência à votação na Câmara dos Deputados sobre um projeto de lei que restringiria o tempo para aborto legal.
Saidinha
Lula também modula o discurso sobre a saidinha de presos em datas comemorativas. Depois de vetar de forma acanhada o projeto de lei que extinguiu as saidinhas — o Congresso derrubou seu veto e impôs a extinção —, o petista achou uma forma “evangélica” de dizer que vetou o PL com convicção (não é verdade), em nome da “família”.
“Como é possível, numa sociedade democrática, em que a base da sociedade é a família… E se o Estado prendeu o cidadão, não é apenas para castigá-lo, é para recuperá-lo… E na hora que o cidadão sai, para ver a sua família, que é uma das fontes de recuperação dele, é proibido?”, questionou em entrevista à rádio Meio, de Teresina.
Os governistas celebraram nos últimos dias uma pesquisa DataFolha que sugere que a progressiva perda de popularidade do presidente foi estancada. Na análise mais otimista para os petistas, a modulação do discurso de Lula nos temas mais espinhosos estaria funcionando. É cedo para dizer, pois ele pode ter simplesmente atingido o piso da popularidade — e o fato é que hoje o petista tem a maior rejeição de seus três mandatos presidenciais.
